segunda-feira, 6 de agosto de 2007

A Defesa do Poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.


Natália Correia

domingo, 5 de agosto de 2007

Il faut rêver

Léo Ferré, poeta, cantor, compositor, anarquista, desassossegado, criativo, contestatário, revolucionário.
Voz quente e palavras ardentes, escritas, ditas, cantadas com alma.
Faz-me bem ouvir esta voz, saboreio-lhe as palavras, aplaudo-lhe o imenso talento, ajuda-me a sonhar.
Porque sonhar é preciso, como viver, respirar, amar!

Avec le temps

avec le temps, va, tout s'en va
on oublie le visage et l'on oublie la voix
le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
l'autre qu'on devinait au détour d'un regard
entre les mots, entre les lignes et sous le fard
d'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
avec le temps tout s'évanouit

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'as un' de ces gueules
à la gal'rie j'farfouille dans les rayons d'la mort
le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
l'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
avec le temps, va, tout va bien

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie les passions et l'on oublie les voix
qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
et l'on se sent floué par les années perdues- alors vraiment
avec le temps on n'aime plus

Léo Ferré (1971)

N.B. - Para ver e ouvir, é só clicar
http://www.dailymotion.com/video/xculo_leo-ferre-avec-le-temps

sábado, 4 de agosto de 2007

Outra barca bela


Uma réplica em miniatura das antigas barcas de Sesimbra (construída pelo meu pai) e eu, também em miniatura. Ainda tive oportunidade, há muitos anos de entrar e "andar" numa delas, em tamanho real. Numa altura em que o meu rosto mal chegava à borda da embarcação e por isso era presenteado com mil salpicos de espuma.
Tinha a sensação que a barca - por ser muito baixa - estava agachada. A minha pequena estatura não ajudava muito e para ver o mar tinha que ir para o colo do meu pai mas, foi um passeio giro, fresquinho e com muito sabor a sal. Não tive medo nenhum! Como ainda hoje. Entrar num pesqueiro, numa traineira ou até num pequeno bote, é um enorme prazer e usufruir dos momentos da faina também.
Nesses momentos aprende-se a dar mais valor aos bravos homens do mar e o peixe passa a ter outro sabor. Nesses momentos - tão mágicos - sinto que o sal do nosso mar corre - com muita força - nas minhas veias.

Barca bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!

Almeida Garrett

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Prometi que não chorava...

Sempre que entra o mês de Agosto, lembro-me ainda mais de ti. Partiste num dia tão quente, depois de muita agonia, depois de te terem roubado a vida, de forma tão cobarde. Um clone barato - e mal feito - de ser humano atropelou-te e deixou-te caído no chão, depois de criminosamente ter conduzido após beber uns copos, sabe-se lá quantos copos, copos que se transformaram em pregos do teu caixão.
Eras muito generoso, tinhas um coração grande e muito bonito, eras tão jovem e já conhecias os caminhos do bem e da justiça. É assim que te guardo no meu coração.
No dia em que partiste, a tua irmã Paula pediu-me que não chorasse junto da vossa mãe, do vosso pai, da vossa irmã, junto à vossa família. Nesse dia, Carlos, e em todos estes longos dezoito anos, engoli as lágrimas sem as mastigar, porque existem pedidos irrecusáveis, porque são lágrimas de muita dor. Porque a dor da tua família, é muito maior que a minha e a generosidade também.
Confesso-te Amigo, que me comovi de felicidade no dia em que a tua irmã Paula casou (se o teu cunhado sabe, vai gozar comigo) nos dias em que os teus sobrinhos chegaram a este mundo. Quando o Diogo nasceu, a tua irmã Susana levou-me junto do berço do menino enquanto me dizia: "Anda, vou-te apresentar o nosso sobrinho!". Com o nascimento do Miguel ganhei mais um sobrinho e assim a família de afectos aumenta naturalmente.
A amizade que une está para além das estrelas, de todas as estrelas. As saudades são difíceis de aguentar e às vezes nascem-me cataratas nos olhos. Como agora... Não importa, eu só prometi não chorar quando estivesse ao pé da tua família. E essa promessa eu cumpri. Acredito que me estás a ver e o teu coração bondoso transforma estas lágrimas em rios de ternura.
Está tanto calor como naquele dia... e sinto que estás aqui, ao pé de mim. E de certeza junto aos outros amigos, no seio da tua família, da mesma maneira que sei que és uma das estrelinhas cintilantes que todos os dias, lá no céu, me deseja uma boa noite e lembra que vale a pena continuar a sonhar.

Biografia

Tive amigos que morriam, amigos que partiam

Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.

Odiei o que era fácil

Procurei-te na luz, no mar, no vento.

Sofia de Mello Breyner Andresen