domingo, 24 de junho de 2007

Memórias de um búzio

Os búzios têm uma capacidade especial que lhes permite armazenar sons do meio ambiente onde se encontram e os mais sonhadores gostam de os encostar ao ouvido, em busca de sonoridades de mar, ventos marinhos e às vezes, sons marinhos que quase deixam adivinhar os gritos das gaivotas. Se quisermos acreditar, os búzios contam histórias de mar, contos do oceano profundo, às vezes epopeias de esperança.
Até bem pouco tempo tive dois búzios pequenos, que apanhei na praia de Sesimbra, durante um dos muitos passeios de fim de tarde com o meu avô. Com aquela generosidade que tão bem caracteriza os homens do mar, o meu avô convidou-me para procurarmos conchinhas e búzios, que também iriam servir de brinquedos. Entrámos um velho búzio, pequeno, vazio, de formas arredondadas, abandonado no areal, coberto de salmoura, restos de algas e muitos grãos de areia colados à casca. Naquela altura, mal me cabia na mão pequena e rechonchuda... Fiquei imensamente feliz com o precioso achado e achei que ele precisava de companhia.
Quando chegámos a casa, fomos lavá-lo e depois deixá-mo-lo em água e detergente para ficar mais limpinho. Fomos mudando a água e mais tarde, esfreguei-o com uma pequena escova. Aos poucos lá fui descobrindo as cores de origem. É um búzio muito bonito que, com o andar dos tempos acabou por caber na minha mão. E ficou mais bonito ainda quando o presenteei com uma camada de verniz.
A maior magia daquele búzio passava pela diversidade dos sons; mar amigo e mar cansado, mar preguiçoso e mar zangado, mar e vento ou simples brisa... Nem é preciso dizer quantas vezes o encostei ao ouvido. Aquele búzio acompanhou-me durante muitos anos, sempre com lugar de destaque na minha casa. Aquele búzio sobreviveu à curiosidade infantil, à falta de jeito para agarrar objectos, mudanças de casa... Aquele búzio viveu comigo quase quarenta anos e foi a muda testemunha das minhas alegrias e dos momentos menos simpáticos. Recentemente ofereci-o porque sim. Foi uma das prendas que mais gostei de oferecer, porque naquela, estava "algo" de mim. Mais tarde, recebi uma mensagem no meu telemóvel: "Ouve-se o mar dentro do teu/meu búzio"! Fiquei ainda mais feliz! O velho búzio gostava da nova família e para comprovar continuava a reproduzir aquelas sonoridades marinhas que ajudam a sonhar.

1 comentário:

Sofia disse...

Minha querida,

Junto aos poetas que mais adoro, na estante dos livros de folhas dobradas, ouve-se o mar. o mar que me deste. as prendas mais valiosas são assim: de absoluta imensidão e generosidade. ouve-se um mar infinito na minha estante, na minha casa, na nossa amizade. obrigada pelo azul. mesmo.