segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Feliz 2008

Mais esperança, mais amor, mais tolerância, mais paz, saúde, trabalho, harmonia, prosperidade e muitos sonhos que nos façam correr. Até já

(Foto alojada em www.flickr.com)

sábado, 29 de dezembro de 2007

Palavras e beijos

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca (...)

Alexandre O'Neill

As palavras são os beijos que te dou todos os dias. Os beijos que te dou, os beijos que guardo para depois. E os beijos que te mando nas asas do vento. E os beijos que fogem dos meus lábios, que pulam de nuvem em nuvem, até se colarem a ti. Mais os beijos que te escrevo e os beijos que imagino. São palavras e são beijos, para ti.
Hoje não me apetece escrever. Quero dar-te um beijo, agora!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Pensar Natal

Natal é um pescador faminto
Perdido no mar
Natal é um invento dos homens
Para combater a solidão
Natal é perdoar
É transformar a fogueira das vaidades
Numa ceia de perdão
Natal é bondade reflectida
É saudade reprimida
Natal é partilha do pão e dos afectos
Natal é o amor que temos em demasia
e o amor que nos falta

Adelaide Coelho

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não, grita comigo: não.
É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

Manuel Alegre

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Estados de mim

No astro sujo de tempestade, cruzam relâmpagos, raios e coriscos. A lua escondeu-se, o vento grita noite dentro, as nuvens também estão zangadas e prontas para abrir as comportas da ira.
No mar, as águas agitam-se, revoltam-se, elevam-se, enrolam-se, voltam a elevar-se... As águas agitadas lembram serpentes demoníacas, enlouquecidas numa dança satânica, prenúncio de morte.
No meu pequeno mundo, escuto a fúria da natureza. Escuto e respeito. No meu mundo, o medo não cabe. Nem a raiva. Aqui só entram a tranquilidade, a paz, os afectos. E todas as palavras de amor.
Lá fora o vento ruge, irado com a chuva que ensopa a noite mas não a raiva. Lá fora, as águas do mar elevam-se e revoltam-se, prepararam-se para atacar quem não as respeita. No mar, as ondas são serpentes prestes a dar o abraço mortal.
No meu cantinho, aquecida pela lareira dos afectos, sinto-me segura, como no colo da minha mãe. Saboreio o meu vinho enquanto revejo o melhor do filme da minha vida. A luz das velas ateia a vontade de sonhar. Aproveito para abraçar também com as palavras (que por vezes não sei dizer) os meus amores.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O sonho

Ao meu amigo Helder Pires
"P'lo sonho é que vamos"

Pelo sonho é que vamos,

Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Todo o tempo é de poesia

Todo o tempo é de poesia
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
Todo o tempo é de poesia
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qu'a amar se consagram.
Sob a cúpula sombriadas
mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

António Gedeão

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Gestos que valem a pena


"Pelo 5º ano consecutivo, a Cáritas vai realizar em todo o país a OPERAÇÃO 10 MILHÕES DE ESTRELAS-UM GESTO PELA PAZ. . .
Esta iniciativa tem o objectivo de contribuir para “lançar uma pedrada no charco” em que se tornou a vivência do Natal que deixou de ter no seu centro o aniversariante: Jesus Cristo. Na génese desta campanha estão os valores
da solidariedade da justiça e da paz.
A vela é apenas um sinal e um instrumento que facilite a partilha de bens com os mais pobres, porque enquanto persistirem tantas e tão graves desigualdades na haverá paz na terra mesmo para “os homens de boa vontade”.
A proposta do acendimento de uma pequenina chama nos parapeitos das nossas casas também é denúncia da opulência, expressa em milhões de luzes que se acendem mas que não iluminam verdadeiramente nem aquecem os corações.
FAÇA UM GESTO DE PAZ. NA NOITE DO DIA 24 DE DEZEMBRO ACENDA UMA VELA PELA PAZ
Informações Nº Grátis 800262626
Vale a pena espreitar o site

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A gente vai continuar

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

(Jorge Palma)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Sinais no céu

Duas gaivotas cruzam o azul do céu e pousam no telhado em frente. Parecem estar a olhar para mim. Começam a gritar, como se quisessem chamar a atenção. Não percebo o que me querem dizer. Elas insistem e eu continuo sem saber. Sem saber o que fazer, sem saber o que dizer.
As gaivotas deixam um último grito, levantam voo e partem em direcção ao rio. O céu ficou ainda mais azul.
(...)
Cai a noite, de mansinho e as gaivotas voltaram. Já não as vejo, apenas escuto os gritos feitos mensagens que não consigo descodificar.
O céu está quase negro e de repente, dois riscos vermelhos rasgam a quase noite. Interceptam-se, formam um xis. As nuvens afastam-se como se obedecessem a uma ordem divina.
Os dois riscos vermelhos são agora os donos absolutos do firmamento. O xis fica ainda mais vivo de vermelho, parece incendiar a noite. E o ponto de intercepção, pisca-me o olho. As gaivotas voltam a partir.
(...)
Só há uma estrela no céu. Brilha envergonhada e tão longe de mim. A lua começou a nascer e oferece à noite um sorriso de prata. A estrelinha parece agora maior. Caminha na noite, em direcção a mim. Está agora à minha frente. Está tão perto mas ainda não lhe posso tocar.
As gaivotas voltaram. Chamam por mim. E eu vou. Essa estrela é minha.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Encosta-te a mim (I)...

... e vem comigo percorrer as ruas de Sesimbra onde me perco e me encontro. Perco-me em busca dos sons, dos odores, das vozes do passado. Encontro-me no muro da praia onde me sento e aproveito para beijar o mar.

... enquanto eu te conto as brincadeiras que fiz nestas praias, enquanto te falo dos imensos bolos de areia que por aí "cozinhei", os montinhos de areia que tentei transformar em peixinhos, e te mostro os sítios por onde andei a apanhar búzios e conchinhas com o meu avô.

... e eu conto-te a história destes barcos, das artes da armação, do tempo em que botes e barcos também vinham descansar à praia.

... e dá-me a tua mão. Ficamos aqui à espera do pôr do sol e dos recados do mar, no silêncio cúmplice da noite. Quando o céu se incendiar, partilhamos segredos e agarramos os beijos que não quiserem ficar.

(Foto alojada em http://www.flickr.com/photos/8239473@N05/789391071/)

Encosta-te a mim

Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar.

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Jorge Palma in Voo Nocturno

http://www.youtube.com/watch?v=Tu9HPz__3ys

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Noite mágica

Dezembro chega à luz de velas de muitas cores, aconchegado pelo calor da lareira e de gente bonita. Porque um simpático e irrecusável convite quebra saudavelmente a rotina cinzenta e a solidão.
E é tão bom sentir a amizade à distância do abraço que apaga as saudades. Amizade que também é gostar de surpreender e de acolher, partilhar um jantar, amigos e afectos, elevar o espírito e a auto-estima. Amizade que também tem a magia de aquecer o coração, limpar o espelho e deixar reflectir uma beleza desconhecida.
Entre olhares transparentes que mostram a bondade das almas, chega à memória uma tranquilidade esquecida. A noite, cúmplice, envolve a Terra num abraço de muita ternura e magia. A noite está tão bonita! E convida a degustar os petiscos, e a saborear os vinhos e as conversas.
Horas depois, a noite convida à dança e muito mais tarde - irrecusávelmente - ao merecido e reparador descanso.
Adormecer e acordar com a certeza que a amizade faz milagres é um excelente incentivo para continuar a acreditar na vida e correr atrás do sonho. Pelo sonho é que vamos! E tu vais comigo!

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Amigo...

"...Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também"
(José Afonso)


Uma canção do Zeca e um Jameson sem gelo (só desta vez), um tchim tchim e um beijo no coração do meu Amigo Jorge. Só assim é possivel deixar Novembro partir.


http://www.youtube.com/watch?v=hfKU5pA-CRI




quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Enquanto houver amizade

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um do outro se há-de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.


Albert Einstein

Prendinha


A minha amiga: Estou?
Eu: Oláááááá bebé!
A minha amiga: Olá linda! Como é que tu sabias que eu nascia hoje?
Eu: Sabia! Olha, nascer, custou muito?
A minha amiga: Não! E é tão bonito. Tu já nasceste, não te lembras como foi?
Eu: Não. Também já foi há cinco anos! Eu já sou "grande"! E olha, queres vir brincar comigo?
A minha amiga: Oh linda, eu quero mas sou muito pequenina, tu moras longe e é complicado chegar aí.
Eu: Não é! O ano passado, uns senhores fizeram uma ponte sobre o Tejo e agora é mais perto. E podes vir na camioneta. O meu pai é chofer e toma conta de ti.
A minha amiga:Mais tarde, linda. Eu ainda só ando ao colo. E sou muito pequenina.
Eu: Ena, ena, eu já sou "grande", posso andar contigo ao colo! E dou-te muitos muitos miminhos. E posso passear-te no carrinho do meu "chorão". E podemos brincar muito, muito, muito. Vou tratar-te como uma princesa.
A minha amiga: Eu sei, linda. Olha, agora tenho que ir tomar leitinho e depois tenho que arrotar...
Eu: ...Arrotar?!! Ah!! Isso é muito feio, dizem os mais "grandes"!
A minha amiga: É feio se forem os "grandes"! Os bebés precisam de arrotar depois de comer. Tu também tinhas que arrotar quando eras bebé...
Eu: ...Olha, se arrotei, foi sem a minha mãe saber. Ela não ia achar graça. Vens brincar comigo?
A minha amiga: Hoje não, linda. Ainda tenho que dormir e têm que me mudar as fraldas e tomar mais leitinho...
Eu: Mas assim não brincamos nada. Assim, não tem graça nenhuma!
A minha amiga: Eh, eh, eh, o que não tem graça é tu fazeres uma birra!
Eu: Não é uma birra! É que assim, eu fico triste.
A minha amiga: Mas eu não te quero ver triste, amiga!
Eu: Pois... Mas, se nós somos amigas, temos que brincar. E nem nos conhecemos. Olha, tu és muito bonita, não és?
A minha amiga: Dizem que sim. Como é que tu sabes?
Eu: Os "grandes" que eu conheço dizem que quando as pessoas são bonitas, percebe-se logo.... parece que se sente... Não sei explicar, mas já tenho a certeza que tu és muito bonita.
A minha amiga: Se tu dizes... olha, linda, tenho que ir tomar leitinho.
Eu: E eu vou fazer-te um desenho. Vou desenhar o mar, as gaivotas, peixinhos, um barco e um céu muito azul. O céu mais bonito para ti, amiga!

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Arcos (de outros triunfos)

(Foto alojada em http://www.flickr.com/photo_zoom.gne?id=201655835&size=o)

Durante muitos anos, os meus caminhos passavam por aqui. Esta estrada fez parte da minha vida. Por aqui passei a pé, em passo acelerado ou de passeio, e de carro. Por aqui andei à chuva e ao sol. Tantos arcos, tantos anos...

Liberdade

Sobre esta página escrevo teu nome
que no peito trago escrito
laranja verde limão amargo e doce o teu nome.

Sobre esta página escrevo o teu nome
de muitos nomes feito água e fogo
lenha vento primavera pátria exílio.
Teu nome onde exilado habito e canto mais do que nome:
navio onde já fui marinheiro naufragado no teu nome.

Sobre esta página escrevo o teu nome: tempestade.
E mais do que nome: sangue. Amor e morte. Navio.
Esta chama ateada no meu peito
por quem morro por quem vivo
este nome rosa e cardo por quem livre sou cativo.
Sobre esta página escrevo o teu nome: liberdade.

Manuel Alegre

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Contrastes


Esta pintura em azulejo é parte integrante da fachada de uma casa (com uma pedra a indicar a construção original em 1871, de acordo com a informação do blogue http://www.sesimbra.blogspot.com/) em Sesimbra, situada na rua D. Afonso Henriques. Neste quadro, têm-se, em fundo, uma visão da marginal da era moderna e em primeiro plano, uma barca típica como as que recordo da minha infância.

Aurora Boreal

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo,
e a melancolia, e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência,e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

António Gedeão

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Hasta siempre Comandante

Seguiremos adelante
como junto a ti seguimos
y con Fidel te decimos:
hasta siempre Comandante.
Aquí se queda la clara,
la entrañable transparencia,
de tu querida presencia
Comandante Che Guevara.

(Carlos Puebla, 1965)

http://www.youtube.com/watch?v=SynVFM_6ezk

N.B. Qualquer dia é bom para homenagear um revolucionário, um homem que deu a vida pela causa nobre da liberdade. Numa altura em que passam quarenta anos sobre a morte da Che, é de lamentar que o grande exemplo d'el Comandante seja aproveitado por oportunistas mascarados de revolucionários mais vocacionados para a ostentação pecaminosa de suásticas. A História também se escreve com nódoas. P' memória apenas contam os bons exemplos.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Cantiga de Amigo

A um amigo que anda "fugido"

Ai flores, ai flores do verde pinho
se sabedes novas do meu amigo,
ai deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado,
ai deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquele que mentiu do que pôs comigo,
ai deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquele que mentiu do que me há jurado
ai deus, e u é?

(...)

D. Dinis

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Colo da mãe


Novembro começa sempre em beleza. E o colo da mãe é sempre tão bom.
Esta fotografia tem mais de quarenta anos. E hoje, a mãe fez 78. É obra!

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Boas memórias

Esta fotografia da velha Sesimbra traz-me tantas memórias de... joelhos esfolados e arranhões! Creio que era por aqui que passávamos a caminho da praia, por causa da velha mania de "cortar caminho". Tantas vezes caí, esfolei joelhos, arranhei-me... enfim, quase que fazia parte de um ritual e eu, como era a mais nova só podia mesmo refilar um bocadinho (e devagarinho) e seguir a fila dos "valentes". Perdia conta às vezes que derrapei, caí, escorreguei e pratiquei uma espécie de desporto muito radical parecido com "sku" mas sem neve e sem qualquer protecção para além do minúsculo fato de banho.
Já nessa altura me doía ver os barcos em terra, abandonados a uma morte lenta...

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor..Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Morais

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

(Talvez um) Pensamento

A amizade é uma nascente espontânea de afectos. Por isso não tem preço e pela mesma razão, não se pode cobrar. Mesmo quando o afecto e o apoio são retríbuidos a pontapé. Há quem não tenha noção de certos valores. De facto, há quem não mereça que se use a palavra amigo.
Outros tempos, outras vontades... afinal mudam-se os tempos e o resto muda logo a seguir, para alguns!
Para mim, fica quase tudo igual. Os amigos, os reais militantes continuam a ser... Amigos! Os outros são nuvens vadias... mendigas de afecto que - depois - deixam morrer à chuva!

Só vou gostar de quem gosta de mim

De hoje em diante vou modificar
O meu modo de vida
Naquele instante que você partiu
Destruiu nosso amor
Agora não vou mais chorar
Cansei de esperar, de esperar enfim
E pra começar eu só vou gostar
De quem gosta de mim

Não quero com isso dizer que o amor
Não é bom sentimento
A vida é tão bela quando a gente ama
Tem um amor
Por isso é que eu vou mudar
Não quero ficar
Chorando até o fim
E pra não chorar
Eu só vou gostar de quem gosta de mim

Não vai ser fácil, eu bem sei
Eu já procurei, não encontrei meu bem
A vida é assim, eu falo por mim
Pois eu vivo sem ninguém

(Rossini Pinto)

N.B. Existem pelo menos duas versões, cantadas por Roberto Carlos e Caetano Veloso

No link abaixo, versão cantada por Caetano Veloso
http://www.youtube.com/watch?v=mBS2wD__KEs

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Precoce...

Eu: Vocês querem que eu ria mas onde é que está a graça? O senhor fotógrafo diz "olhó passarinho, minha linda, ri-te"... ora eu não vejo passarinho nenhum e isto não tem graça nenhuma!
(blablablablabla...)
Eu: Está bem, eu hoje faço um ano e vocês querem tirar-me uma fotografia e este senhor fotografo tira fotografias muito bonitas mas para rir, eu tenho que achar graça, não é? E porque é que o pai não vem sentar-se também aqui ao pé de mim? O pai também faz anos hoje!
(blablablablablabla...)
Eu:
E nem pensem vir pentear-me outra vez, porque pentear os caracóis faz doer muito a cabeça. Quando eu for grande e tiver caracóis... não me penteio!
(blablablablablabla...)
Eu: Pois, eu fico muito linda de caracóis e o pai gosta muito. Só não percebo porque é que o pai não deixa crescer o cabelo dele... o pai também tem caracóis. Ah! Mas depois não cabiam debaixo do boné e o senhor patrão do pai também não gostava.
(blablablablablablabla...)
Eu:
Pois é, eu tenho um vestido muito lindo, sapatinhos novos, faço um ano e sentaram-me em cima deste divã e tenho que estar quietinha, olhar para a máquina e rir-me... e isto não tem graça nenhuma! Eu não posso pular nem um bocadinho? Assim, tinha um bocadinho de graça.
(blablablablabla)
Eu:
Já percebi, não posso pular porque tenho que estar quietinha para a fotografia e porque não me posso despentear nem amachucar o vestido. Depois, mais logo, eu e o pai vamos apagar as velas e vamos "partir" o bolo. E hoje, eu não brinco? Assim não tem graça fazer anos!
(blablablabla)
Eu: Se o pai não brinca, é porque não quer!De certeza que a avó, hoje, deixa. Ele também faz anos hoje! Assim, não tem graça nenhuma. Viemos a Sesimbra e nem sequer posso brincar e ainda querem que eu me ria...
(blablablablabla)
Eu: Sabem o que é tinha muita graça, eu ia gostar muito, muito, muito e até ria muito também? Sabem? Sabem? É assim: vamos para casa da avó, vocês vestem-me uma roupa de brincar, uns calçõezinhos e uma blusinha, o pai põe-me às cavalitas e vamos para praia. E depois, na praia, eu vejo os barcos, os pescadores, as gaivotas, o mar e posso brincar na areia, perceberam? E depois acho graça e rio-me muito. E depois, o senhor fotografo vai lá e tira-me fotografias e também aos barcos, e aos pescadores. Porque este senhor fotografo é muito bom a tirar fotografias aos barcos, aos senhores pescadores, ao bairro da avó, às casas de Sesimbra...
(bla,bla,bla,bla,bla)
Eu: Vocês, os "grandes", têm sempre resposta para tudo. Agora é porque está muito frio e não se pode ir à praia. Então, já que sabem tudo, expliquem-me lá.. se está assim tanto frio, como é que os senhores pescadores estão na praia a "empatar" e "desempatar" anzóis e a coser as redes e os outros senhores pescadores foram ao mar e trouxeram peixinhos e os barcos estão na água?
(...)
Eu: Agora não falam porquê? Porque é que não explicam? E porque é que se estão a rir? Eu não acho graça nenhuma!

*** Fotografia tirada nos estúdios Cabecinha (Sesimbra, Outubro, 1963)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

domingo, 21 de outubro de 2007

Farol


Todos procuramos um rumo na vida. Na busca do caminho certo, é importante ter um farol... e também um porto de abrigo. E sempre, amigos que esperam por nós.

N.B. Farol do Cabo Espichel - Sesimbra. Foto alojada em http://www.flickr.com (Sr. Ganso)

sábado, 20 de outubro de 2007

Álbum de recordações

Uma música que também marca uma época e um espaço... Passaram-se muitos anos, vinte. A música, as fotografias e os cheiros lembram momentos e sensações que valem tanto a pena. Como tudo o que me lembra esta canção...

Menina dos olhos de água

Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar
menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar

menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro que nem sei explicar

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar

aprendi nos "Esteiros" com Soeiro
aprendi na "Fanga" com Redol
tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo

aprendi a amar a madrugada
que desponta em mim quando sorris
és um rio cheio de água levada
e dás rumo à fragata que escolhi

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar...
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar

(Pedro Barroso)

http://www.pedrobarroso.com/f_poemas_p.htm

http://www.youtube.com/watch?v=UAdJ-JxgamE

Comme il faut...


Ao longe um sol em brasa, ou uma lua abrasadora... ou se calhar o meu coração. Todas as brasas se acalmam no mar... os calores e as paixões também; acalmam mas não se apagam porque existem outras chamas, fogos que ardem também sem doer.
Mais ao perto as luzes; a terra tão perto e a cumplicidade também! As luzes também podem ser sentinelas, testemunhas, cúmplices, ou sinais de vida. Luzes guardiãs da vida e de todas as vidas; pequenos faróis que também sossegam quem está no mar ou (perdido) em terra.
E por esta altura, o mar rosna aos maus que fingem dormir ou que fingem ignorar a rosnadela. Também por esta hora, o mar sussurra mensagens de esperança e amor, aos que acreditam, aos que o respeitam; bons, menos bons e aos que ainda acreditam na bondade.
Quero acreditar que uma das mensagens é para mim! Quero acreditar que o meu sítio está aqui! Neste mar de muitos azuis de esperança, estradas de promessas e de bem, só lhe falta - porque me apetece - gerberas, rosas, margaridas e girassóis... estão todas no meu coração. E este mar de Sesimbra, também!

N.B. Foto alojada em http://www.flickr.com/photos/11742963@N08/1638626753/

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Há dias assim...

Comovi-me de felicidade no dia do teu casamento, voltei a emocionar-me quando os teus filhos nasceram. Senti-me tia, muito tia, nesses momentos. Quando lhes peguei ao colo pela primeira vez, estremeci de ternura. Eram tão pequeninos, tão bonitos e senti-os também um pouco meus. Como já sentia a tua familia um pouco minha. A amizade tem destas coisas... traz-nos presentes, para toda a vida, embrulhados em ternura. É por isso que quando falo dos teus pais, refiro-me sempre ao Pai Santos e à Mãe Santos, os teus irmãos também sempre os senti como os meus mais novos.
Conhecemo-nos há vinte e um anos. Ao longo de todo este tempo, vi-te crescer como ser humano, também como profissional. E tenho um orgulho imenso em ti, até mesmo quando tens mau feitio (nada de mais comparado com o meu). E continuo a gostar muito de ti, apesar de seres do Sporting.
No teu dia especial, é inevitável o desfiar das recordações de todos estes anos de amizade. Das meias tostas de queijo que me obrigaste a comer quando me apetecia uma sandes de presunto ou até uma tosta mista, das partidas que te preguei, de todos os momentos da tua vida que me deixaste partilhar.
Hoje é um bom dia para te parabenizar pelo teu aniversário e particularmente pelo tamanho do teu coração. E para não te arreliar, nem sequer falei aqui daquelas histórias giras nem daqueles nomes fantásticos que gosto tanto de te chamar. Vês? Estou a portar-me tão bem, Paula Cristina!
Feliz aniversário Amiga
Um beijo

Trova do vento que passa


Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
e o vento nada me diz.
E o vento cala a desgraça
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia,
dentro da própria desgraça,
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste,
em tempo de servidão,
há sempre alguém que resiste,
há sempre alguém que diz não.
Há sempre alguém que resiste,
há sempre alguém que diz não.

(Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira)


terça-feira, 16 de outubro de 2007

Tanto Mar

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

(...)

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Chico Buarque in (Tanto mar)

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Maus disfarces

A falsa humildade fica tão bem como porcaria de cão na via pública. Mesmo assim, há quem goste de falar de humildade e até dar lições de moral. E se uma das coisas fica mal, as duas soam muito pior. Quem só fala de humildade para o que mais convém não tem moralidade. Quem faz as coisas por bem, prefere ficar no anonimato. Quem quer ter razão à força, às vezes nem assim consegue. Os regimes totalitários caem mais facilmente quando pela força bruta querem ter seguidores. Os ditadores, só o são por terem o apoio de uns quantos seres limitados - e às vezes a raiar todos os patamares da imbecibilidade, - outros que não percebem e nada fazem por isso e ainda os acomodados que receiam perder as cadeirinhas conquistadas pela graxa e pela submissão.
A dignidade é por uns e outros ignorada, banida. Por mais voltas que se dê, dignidade não combina com falsa humildade e falta de moralidade. É por isso que certos ranhosos disfarçados do que mais lhes convém, gostam tanto de enaltecer a humildade e acabam por mostrar a verdadeira dimensão da arrogância. Por acharem que o dinheiro compra tudo, incluindo afectos, respeitabilidade e máscaras para todo o ano. Vão - se safando com a compra das máscaras, que também podem ser de pseudo afecto. Mas os afectos não se compram, não se vendem. E a respeitabilidade que gente de má indole com máscaras de malta porreira julga ter conquistado, não passa de medo mal disfarçado. Quem vende a alma por um euro - na mira de outros lucros - considerará oportuno e até de muito bom tom, fazer vénias, ajoelhar e deixar-se pisar, como se fosse um tapete.
De facto, certos merdosos que se julgam senhores, só porque ventos de sorte permitiram que a carteira finalmente servisse para ter dinheiro - e dinheiro que se pode gastar - para comprar muitas máscaras... também de hipocrisia! E já agora, para o disfarce ser perfeito, dá jeito também comprar manuais de boas maneiras, os mais básicos sobre diplomacia já que querem tanto aprender. Também podem disfarçar a má formação enquanto seres humanos, começando a beber chá, até porque existem chás bastante caros, permitindo também a ostentação do novo riquismo.
Pois, não falta onde gastar dinheiro. Faltará sempre boa educação, gratidão, sentido de justiça, dignidade, generosidade e respeitabilidade a sério. São qualidades que apesar do muito dinheiro, só podem exibidas com máscaras e maquilhagens... que mesmo da melhor qualidade, felizmente, não duram sempre!
Também há dias em que as almas não estão à venda...

sábado, 6 de outubro de 2007

Barco Negro


De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.[Bis]

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:
São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.[Bis]

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.

Música: Caco Velho; Piratini
Letra: David Mourão-Ferreira

http://www.youtube.com/watch?v=GdJYzzyO7nc



Amália Rodrigues
1920/1999

Aos que acreditam no sonho

Porque acreditar, é correr (atrás do sonho), é ser um pássaro e voar mesmo quando as asas estão parcialmente cortadas, é cantar mesmo quando lhe tentam partir o bico...
Porque acreditar é também partilhar o sonho e a vida. Vale a pena! Vale sempre a pena! Porque os bons vencem para sempre... os maus só ganham meias batalhas.
Vale a pena sonhar, viver, acreditar, amar, dar, receber, aceitar, abraçar...
Talvez um dia eu consiga perdoar, quando a minha alma for maior.

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendos
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)

Acontecimentos que valem a pena


"Era Outubro, despertei..."
Parabéns Sic

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

As portas...

Vale a pena ler o poema de Ary dos Santos. Vale a pena reflectir. Vale a pena pensar... numa altura em que se tropeça frequentemente em atropelos à democracia. Quero continuar a acreditar que "a liberdade está a passar por aqui"

As portas que Abril abriu

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.
Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.
Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.
Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.
E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.
E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavamos cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.
E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.
E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.
Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.
Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.
E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.
Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.
Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.
Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.
Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.
Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desditada história colonizada.
Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a renderao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!
É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletáriada nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se dissee só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!

Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

Ary dos Santos (1975)

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontade

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre, tomando sempre novas qualidades.
E se todo o mundo é composto de mudança
Troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, e do bem, (se algum houve...) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E em mim converte, e em mim converte em choro o doce canto.

E,afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía
Que não se muda, que não se muda já como soía

José Mário Branco a partir de um soneto de Camões

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Cores de terra


Primeiro dia do mês de Outubro. Tempo ameno, céu ainda azul com nuvens pachorrentas ao sabor do vento, sol preguiçoso. As folhas das árvores mudam de cor... ficam acastanhadas, avermelhadas, até se tornarem pálidas. Cheira a terra e tudo fica cor de terra. Apetece comer castanhas assadas, quentinhas, para aquecer a alma.
Primeiro dia de Outubro, mês especial, o meu preferido. Entre o muito calor e o demasiado frio. Altura em que as árvores se despem de folhas e vergonha. Fica tudo a nu. A minha alma também. Gosto tanto do mês de Outubro.
(Foto D.R.)

sábado, 29 de setembro de 2007

Uma imagem vale também por mil saudades


(Foto: D.R.)

Canção tão simples

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?

Manuel Alegre

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Cantiga de Amigo

Nem um poema
nem um verso
nem um canto
tudo raso de ausência
tudo liso de espanto
e nem Camões Virgílio Shelley Dante
o meu amigo está longe
e a distância é bastante.
Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado
todos sem mãe nem pai
Ah não Camões Virgílio Shelley Dante!
o meu amigo está longe
e a tristeza é bastante.
Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões Virgílio Shelley Dante:
o meu amigo está longe
e a saudade é bastante!

Ary dos Santos

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A carta que não foi mandada

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor
Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais

Vinicius de Morais

terça-feira, 25 de setembro de 2007

À flor da pele

Cola-se à pele o amor e a nostalgia. Cola-se à pele a vontade de te ver, de te abraçar, de te sentir. Colam-se à pele os sonhos e os poemas. E a pele arrepia-se depois de sentir o frio da solidão.
Cola-se à pele a vontade de fazer... Cola-se à pele a vontade de comer pétalas de rosa, abraçar as árvores e viajar pelas nuvens passageiras, plantar uma flor no céu, tocar uma estrela para lhe sentir a luz.
Cola-se à pele esta vontade de ti.

Noite

Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.
Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.
São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.
Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.
Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.
Também a noite é escura.

Agostinho Neto

domingo, 23 de setembro de 2007

A meu favor

Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neil

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Reviver o passado em Sesimbra


A vila piscatória de Sesimbra recupera este sábado (22/09/07) uma das tradições mais marcantes até à década de setenta; a antiga lota, na praia, junto à Fortaleza de Santiago, em frente ao largo da Marinha, local onde funcionou até 30 de Abril de 1973. Por esses tempos, era ali que os pescadores descarregavam o peixe e cada espécie era disposta de acordo com a importância que tinha no mercado.
O peixe-espada branco era estendido na areia lisa, a pescada era colocada em montes, virada de barriga para barriga, o goraz em cima de pirâmides de areia, a chaputa em vedações de caixas de madeira, a albacora em cima das caixa viradas ao contrário e o carapau e a sardinha eram por vezes vendidos ainda a bordo das embarcações.
Este autêntico ritual, prática diária na vila, atraía ao local para além dos compradores, também muitos veraneantes surpreendidos pela genuinidade de todo o processo. A venda do peixe era feita também de uma forma pouco comum; o peixe - a que era atribuído uma primeiro valor para venda - era vendido mediante uma espécie de leilão, em que o pregoeiro, de forma rápida e sem quaisquer enganos, "cantava" os valores pecuniários. Ou seja, imagine-se que a teca de peixe era atribuído valor de 200 escudos; a contagem começava aí e depois ia decrescendo, 199, 198, 197... até que o comprador interessava gritava. "Chui, o peixe é meu".
Numa autêntica lição de história ao vivo, a venda de peixe na antiga lota da praia deverá contar com cerca de uma centena de figurantes, entre antigos pescadores, vendedores e até pescadores.
Para ver, a partir das 15 horas



quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Lavar a alma

(Fotografia alojada em www.sesimbra.blogspot.com)



Sesimbra. Céu e mar no mesmo azul. E de azul também a traineira "Luis Adrião". Sempre azul, abrindo caminho até à doca, deixando rastos de branca espuma que apetece seguir. E um bando imenso de gaivotas que parecem saudar e também guiar a embarcação até ao porto de abrigo. Quem está em terra já sabe; a faina foi próspera. Autêntico ouro sobre azul!
A fotografia cola-se à pele, pela beleza, pela autenticidade e ajuda a lavar alma. Adivinha-se o canto das gaivotas, o cheiro a mar ao amanhecer e o sorriso do mestre Fernando Manso. Adivinha-se a alegria dos outros homens da companha. Pescadores de rosto queimado pelo sol e pelo sal do (nosso) mar, homens valentes nem sempre bem recebidos pelo mar, homens de sorriso franco e grande generosidade, com fios brancos de cabelo e sapiência a espreitarem por debaixo dos bonés... uma imagem vale por mil palavras.
N.B. Mil agradecimentos ao fotógrafo, também pela beleza do momento eternizado pela objectiva.

Maniqueísmos...

Os bons distinguem-se pela grandeza da alma, pela desmesurada bondade, pela imensa capacidade de amar e perdoar, pela tolerância, por não usarem máscaras, pela autenticidade genuína, pela amizade incondicional, por resistirem às tentações maléficas, por respeitarem totalmente o ser humano, por estarem presentes mesmo ausentes, por serem naturalmente bonitos, por - também - naturalmente se colarem à pele.
Os que fingem ser bons tentam copiar os genuínos mas acabam por escorregar numa das achas da fogueira das vaidades, onde descartam e deixam arder também quem já não interessa e não alinha pelo mesmo diapasão.
Os menos bons têm um bocadinho mais de mau feitio mas querem ser melhores e por isso seguem os excelentes exemplos dos bons para aprenderem a perdoar, apurarem a capacidade de amar e tudo o que for importante para sentirem bem, cada vez melhor. É uma jornada longa, é como uma travessia no árido deserto, com final feliz.
Todos eles - bons, pretensos bons e menos bons - têm rostos, têm nomes. Gostava de mostrar aqui fotografias dos bons que eu conheço, revelar nomes, enaltecer-lhes virtudes. A maioria não ia achar graça. Gostam mais de discrição e os menos bons, também. Os outros, não merecem destaque.
Em nome do amor maior que me liga a uns e também aos outros, vou ficar por aqui. As vontades são como os segredos e os tesouros. Há que guardar em lugar seguro.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

À boleia... e totalmente de acordo

"Cada um tem de mim exactamente o que cativou, e cada um é responsável pelo que cativou, não suporto falsidade e mentira, a verdade pode magoar, mas é sempre mais digna. O melhor é ir à luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão. Perder com classe e vencer com ousadia, pois o triunfo pertence a quem mais se atreve e a vida é muito para ser insignificante. Eu faço e abuso da felicidade e não desisto dos meus sonhos. O mundo está nas mãos daqueles que têm coragem de sonhar e correr o risco de viver os sonhos".

Charlie Chaplin

A banda

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Pra ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor

(Chico Buarque - 1966)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Solidariedade

O "Correio da Manhã" publica, na edição de ontem, uma verborreia de palavras absolutamente gratuita e muito infeliz, numa pseudo rubrica chamada Voz-off, sob o título "A educação de Rita". Nessa cloaca de palavras acintosas existe um ataque cerrado, brutal e cobarde a um excelente profissional de televisão, Nuno Graciano.
O escrevedor desses miseráveis parágrafos, provavelmente azedado pela ingestão de algo estragado que lhe misturou o metabolismo intestinal com a reduzida actividade cerebral que mostra ter, insulta cobardemente o apresentador da Sic, traça-lhe um perfil quase demoníaco, acusando-o de uma febre de mediatismo totalmente desconhecida. O pindérico juntador de letrinhas do abecedário, munido de uma pena molhada num tinteiro de maldade e estrume, tenta arrasar com o bom nome e imagem de Nuno Graciano, tenta arrastar o apresentador de televisão para becos satânicos por ele não trilhados, com objectivos que escapam ao entendimento do ser humano comum. As razões que levaram o nada inspirado escrevedor a afirmar tais coisas de Nuno Graciano estão abaixo de todos os níveis da dignidade; a dita coluna Voz Off peca pelo nível ordinário, reles, e totalmente desprestigiante para o jornal que lhe dá espaço.
Enquanto autora destas linhas estou duplamente indignada. Por constatar que ainda há quem se aproveite oportunisticamente de uma coluna - num matutino de grande tiragem - como um bocadinho de poder que cai por terra, mediante tanta malvadez e cobardia. Mais indignada ainda estou porque conhecendo pessoalmente o apresentador, por termos trabalhado na mesma equipa, sei bem que atrás das câmaras o Nuno Graciano continua a ser o mesmo homem generoso, de coração grande e alma transparente; um príncipe da comunicação e da solidariedade.
Quem me conhece sabe que tenho por hábito dizer o que me vai na alma. Por isso, Nuno, companheiro, amigo, acredito saberes bem que não há vinagrezito - ou até veneno maior - capaz de corroer estes laços de afecto, respeito e admiração que me ligam a ti.
Um beijo
Adelaide

Livre (Não há machado que corte)

Não há machado que corte
a raíz ao pensamento [bis]
não há morte para o vento
não há morte [bis]

Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida
sem razão seria a vida
sem razão

Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre

(Carlos Oliveira/Manuel Freire)

Interprete: Manuel Freire

sábado, 15 de setembro de 2007

Elmano Sadino



Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765, numa casa existente na Rua Edmond Bartissol (número 12), conhecida por Casa de Bocage/Galeria Municipal de Artes Visuais.
Apesar das imensas biografias publicadas após a morte do vate sadino, boa parte da vida do poeta permanece um mistério. Não se sabe que estudos fez, embora se deduza pela obra deixada que estudou os clássicos e as mitologias grega e latina, francês e também latim.
A infância terá sido infeliz. O pai foi preso por dívidas ao Estado quando ele tinha seis anos e permaneceu na cadeia seis anos. A mãe faleceu quando tinha dez anos. Possivelmente ferido por um amor não correspondido, assentou praça como voluntário a 22 de Setembro de 1781 e permaneceu no Exército até 1783, altura em que foi admitido na Escola da Marinha Real, onde fez estudos regulares para guarda-marinha. No final do curso desertou, mas, ainda assim, aparece nomeado guarda-marinha por D. Maria I.
Em 1786 embarcou como oficial de marinha para a India, na nau “Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena”, passando algum tempo no Rio de Janeiro. De acordo com o "Dicionário de Curiosidades do Rio de Janeiro" de A. Campos - Da Costa e Silva, "gostou tanto da cidade que, pretendendo permanecer definitivamente, dedicou ao vice-rei uma poesia-canção cheia de bajulações, visando atingir seus objetivos. Sendo porém o vice-rei avesso a elogios, fê-lo prosseguir viagem para as Índias".
Já na India, Pangim, frequentou de novo estudos regulares de oficial de marinha. Foi depois colocado em Damão, mas desertou, embarcando Macau. Não há registo de que tenha sido punido e ao que parece regressou a Lisboa em 1790. Se antes de antes, a fama de poeta versejador já corria pelas ruas da cidade, após o regresso, a década seguinte regista a maior produção literária de sempre e também o período de maior boémia e vida de aventuras.
No regresso, em 1790, aderiu - por convite - à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia, onde adoptou o pseudónimo Elmano Sadino. Pouco tempo escrevia já ferozes sátiras contra os confrades. Um ano depois, foi publicada a primeira edição de “Rimas”.
Pina Manique, o Intendente da Policia que dominava Lisboa decide pôr ordem na cidade, e 1797 Bocage é preso por ser “desordenado nos costumes”. Cumpre pena primeiro no Limoeiro, Limoeiro, depois no calabouço da Inquisição no Rossio, e no Real Hospício das Necessidades. Durante a detenção, Bocage mudou o comportamento e começou a trabalhar seriamente como redactor e tradutor, saindo em liberdade no último dia de 1798.
Nos anos que se seguiram continuou a trabalhar como tradutor, com uma frade que gozava das boas graças de Pina Manique. Vive definitivamente em Lisboa, numa casa alugada no Bairro Alto, o nº 25 da Travessa André Valente, na companhia de uma irmã que tinha que sustentar. Vive do trabalho e de pequenas ajudas dos amigos que lhe vendem os livros e lhe arranjam serões e saraus e outras festas para declamar os poemas que tão escreveu.
Bocage faleceu a 21 de Setembro de 1805, devido a um aneurisma. Depois de Camões, é o mais celebrado poeta português. Deixou uma vasta obra, multifacetada, do erotismo ao brejeirismo, da crítica construtiva ao escárnio, o que lhe valeu a atenção especial da censura, tendo visto muitos versos cortados, que lhe cortou muitos versos, outros alterou e muitos simplesmente omitiu tendo sido publicados apenas a título póstumo.
No ano em que se assinalava o primeiro centenário do nascimento do vate, surge no Brasil uma proposta para angariação de fundos para a construção de um monumento alusivo a Bocage. Uma crise financeira no Rio de Janeiro quase impossibilita a acção. Mesmo assim, o principal impulsionador da iniciativa no Clube Fluminense, José Feliciano de Castilho, consegue reunir alguma verba que é canalizada para Portugal. A 22 de Novembro de 1871 a câmara municipal de Setúbal colocou a primeira pedra no monumento, inaugurado a 21 de Dezembro seguinte. O monumento, de mármore branco, mede 12 metros de altura e é formado por uma coluna coríntia em cima de quatro degraus oitavados, tendo sobre o capitel a estátua do poeta, com dois metros, está situado num dos espaços mais nobres da cidade de Setúbal, que também tem o nome do poeta (Praça do Bocage) onde também se situam os Paços do Concelho, para onde curiosamente, o vate está virado de costas.
Em 1868, a câmara sadina tinha já mandado colocar uma lápide comemorativa na casa onde nascera o grande poeta. Mais de um século depois, a autarquia sadina recuperou a casa e transformou-a em espaço de artes/galeria de exposições temporárias.
No entanto, a autenticidade da casa de Bocage, doada ao município, em 1888, pelo industrial francês Edmond Bartissol, foi posta em causa por Adelto Gonçalves, autor de "Bocage, o perfil perdido". No livro, Adelto Gonçalves advoga que o poeta nasceu não ali, mas junto ao Largo de Santa Maria. Segundo o investigador brasileiro, que consultou escritos no mesmo sentido deixados pelo historiador Almeida Carvalho, a consagração da casa em causa terá sido fruto de "uma farsa" arquitectada em oitocentos.
15 de Setembro, data de nascimento do poeta, é feriado municipal em Setúbal.

O autor aos seus versos


Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

Bocage

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Às vezes apetece tanto...

... dar um murro em alguém. E por mais justo que esse murro seja, perde toda a legitimidade por se tratar de um acto de violência. E se for - alegadamente - em legítima defesa, ainda há que provar que houve ataque.
A violência gera ainda mais violência e as guerras começam assim. Guerras surdas, guerras frias, guerras de raivinhas, guerras também de puro oportunismo. E por vezes, quem mais lucra com tudo isso, não é quem deu - alegadamente ou não - um murro mas sim quem melhor soube aproveitar os dividendos criados pela situação.
O ideal olímpico ensina a viver em fraternidade, camaradagem, fair play... E depois entorna-se o caldo, às vezes, com uma simples fervura.
Há dias em que se acorda com vontade de bater de alguém. Dias em que a vida se esqueceu de dar o beijinho matinal de bom despertar. Mas é tão mau pensar assim. Pode-se arrasar alguém e muito bem, com palavras. Quando esse alguém merece! Porque há gente que nem merece o esforço das palavras e muito menos um murro, que até vai fazer doer a mão.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

As bombas são a vergonha da humanidade.
O terrorismo é o expoente máximo da cobardia.
As armas tentam calar a indignação
Os disparos também matam inocentes
Matar nunca vai ser a solução

Cantata de Paz

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.

Letra: Sophia de Mello Breyner Andresen
Música: Francisco Fanhais
Canta: Francisco Fanhais

E aqui pode ouvir:

http://www.youtube.com/watch?v=pWRLqw-M1Jo&mode=related&search=

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Levem - me esses fantasmas... também

Levem os fantasmas que me assombraram para bem longe, para um sítio de onde seja impossível o regresso. Não preciso deles, não os quero, nem para fechar numa velha mala que já não serve para nada, nem mesmo para os castigar.
Levem-me esses fantasmas e as minhas dúvidas. Deixem-me a dignididade que nunca me roubaram, a minha consciência tranquila, o meu coração de pássaro ferido. Deixem-me a capacidade de ainda acreditar, deixem-me correr atrás do sonho e morder rosas vermelhas de vida e de amora. Deixem-me beber a água fresca das nascentes, cheirar a terra molhada, amar cada pôr do sol, adormecer embalada pelo mar.
Levem-me esses fantasmas. Não me metem medo, mas também não me fazem falta. Eu não faço o que eles querem. Não faço vénias gratuitas, não me ajoelho e muito menos para subir.
Os degraus sobem-se de pé. Como se fossemos árvores. Subir de joelhos é prostituir o corpo e a própria alma.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

São poemas, Senhor...

São palavras,
muitas palavras que se tornam poemas.
São poemas de amor...
amor carnal,
amor maior, amor mais alto,
amor de mãe, amor de filho,
amor de irmão,
amor de amigo!

Em cada coração generoso
existe um poema por escrever.
Há um dia
em que o amanhecer se faz poema
e o poema faz-se amor.
São poemas ocultos no regaço,
São poemas...

Adelaide Coelho

No teu poema

No teu poema
existe um verso em branco e sem medida,
um corpo que respira,
um céu aberto,
janela debruçada para a vida.
No teu poema
existe a dor calada lá no fundo,
o passo da coragem em casa escura e aberta,
uma varanda para o mundo.
Existe a noite,
o riso e a voz refeita à luz do dia,
a festa da Senhora da Agonia
e o cansaçodo corpo
que adormece em cama fria.
Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco,
a raiva e a luta de quem caiu que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe o grito e o eco da metralha,
a dor que sei de cor mas não recito
e os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
existe um cantochão alentejano,
a rua e o pregão de uma varinae
um barco assoprado a todo o pano.
Existe um rio
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem caiu que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro.

José Luís Tinoco

http://www.youtube.com/watch?v=4tvlp2TpiPM

(N.B. Para mim, a versão mais bonita é cantada por Simone de Oliveira)

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Nham Lu

Doce como chocolate, olhar entornado de amor e "sôdade", sorriso lindo de marfim, coração bondoso do tamanho do mundo. É assim a Dona Lu; um dos seres humanos mais bonitos que já conheci. Durante oito anos tive o privilégio de conviver com ela diariamente, saborear as comidinhas feitas com arte e muito amor, receber os abraços também tão doces.
A comida da Lu, da Dona Lu, tem o sabor de comida de mãe. Os "preguinhos" no pão que ela fazia propositadamente para mim nos dias em que mal havia tempo para comer; as iscas grelhadas da Dona Lu, nos dias em que os pratos principais do refeitória da empresa não recolhiam a minha preferência... As moambas e as cachupas, as caldeiradas... têm sempre um sabor especial. Todos os pratos são sempre confeccionados com muito, muito amor. Alimentam o corpo e a alma!
A Dona Lu é um pouco mais velha do que eu; mesmo assim, mal nos conhecemos e logo me senti adoptada como uma filha que ela teria tido numa idade impossível. Quando a via a cozinhar, às vezes mesmo só para mim, sentia-me especial. Percebia que a Lu estava a fazer-me o almoço ou jantar com o mesmo empenho e ternura, como se fosse para os filhos, ausentes, lá longe, muito longe, na terra distante de Cabo Verde. E de todas vezes como eu sentia que a comida da Dona Lu me ajudava a esquecer o lado menos bom do dia, e as caretas da vida.
A Dona Lu é uma mulher muito reservada, tímida, fala pouco, e tem um olhar transparente e terno. É fácil perceber o que lhe vai na alma. Quando logo pela manhã começa a cantar baixinho a morna "Sôdade", já se sabe que as saudades da terra, dos filhos, de toda a família -numerosa - apertam o coraçãozinho ainda mais. Os olhos ficam ainda mais doces mas com outra luz, a luz cinzenta da "sôdade".
A Dona Lu é linda. Hoje faz anos e está de certeza mais jovem, mais bonita. Há bocado falámos ao telefone e percebi que está feliz.
A Dona Lu é muito especial. Parabéns Nham Lu. Gosto muito de ti. Um beijo no coração

Adelaide Coelho

Sôdade

Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa São Tomé
Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau
Si bô 'screvê' me'
M ta 'screvê be
Si bô 'squecê me'
M ta 'squecê be
Até dia
Qui bô voltà
Sodade sodadeSodade
Dess nha terra Sao Nicolau

(Armando Soares)

Canta Cesária Évora

http://www.youtube.com/watch?v=OabD8gr3Hjs

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

... Um rio (rádio) azul igual ao meu

O rosto moreno, o sorriso aberto e a arte maior de fazer música com uma cana rachada são imagens que se colam à memória. A canção "Rio Azul", cujo refrão é uma espécie de hino para uma geração de jornalistas, animadores, operadores de som e administrativos da Rádio Azul, fizeram com que Xico da Cana fosse "gente de casa", tal como o Mário Regalado, autor do tema, e já falecido há uns anos.
Nos dias do aniversário da primeira emissão da estação radiofónica (01/07/07), era quase um ritual cantar o refrão de "Rio Azul" antes dos parabéns e do apagar das velas, alterando um bocadinho, pequenino, o refrão. Ora vejam, a versão original...

Onde é que existe um rio azul igual ao meu
que em certos dias tem mesmo a cor do céu,
minha cidade é um presépio é um jardim
queria guardá-la inteirinha só para mim.
(Mário Regalado)
E agora, a versão adaptada...
Onde é que existe um rádio azul igual ao meu
que em certos dias tem mesmo a cor do céu,
minha rádio é um presépio é um jardim
queria guardá-la inteirinha só para mim.
São memórias de um tempo que ficou colado à pele, aos sentidos. São memórias de um tempo que serviu para aprender, crescer, fazer amigos, criar laços para a vida. Memórias de um outro tempo também de juventude, generosidade, amor à camisola, empenho e profissionalismo a crescer. Hoje, mais velhos, mais crescidos, mais profissionais, mais ou menos vencedores, hoje continuamos a partilhar as memórias que se colaram à pele e ao coração. Hoje, particularmente tristes, trauteamos baixinho o nosso rio (rádio) azul... e desfiamos outras recordações.
Obrigada Mário Regalado pela inspiração. Obrigada Xico da Cana pela interpretação. Hoje voltaram a reencontrar-se, num espaço de muita luz.
Até sempre, até às estrelas

In Memorian

Xico da Cana faleceu faleceu esta noite. Francisco José Baptista, mais conhecido por Xico da Cana contava oitenta e três anos e tornou-se conhecido no meio musical pelas canções sobre Setúbal, o rio Sado e os pescadores, e a Serra da Arrábida e principalmente pela cana rachada usada para acompanhar as melodias, conferindo-lhes uma sonoridade diferente, atractiva e de cariz muito popular.
Rendido às belezas de Setúbal, do Sado e da Arrábida, foi justamente o tema "Rio Azul" (ver post abaixo) - da autoria de Mário Regalado, também já falecido - que maior projecção deu ao grupo musical, que liderava há mais de quarenta anos, o Conjunto Típico Xico da Cana, fundado de parceria com Luciano Salgado, depois de ter fundado um outro grupo, o Conjunto Canavial .
Francisco José Baptista, aliás Xico da Cana começou muito novo a desvendar os segredos do mar. Aos doze anos ingressa na faina, pela mão de tio, actividade que só abandonaria muitas décadas depois, devido a um acidente em terra. Em Sesimbra, chegou a ser mestre de traineiras "Aberta", "Pastorinha", "Previdência" e "Marateca".
Também bastante interessado pela gastronomia, abriu um primeiro restaurante na localidade de Volta da Pedra, concelho de Palmela, e alguns anos depois mudou o negócio para Setúbal, com a Tasca do Xico da Cana, numa artéria transversal à avenida Luisa Todi, rapidamente tornada local de culto para os apreciadores do excelente peixe fresco da cidade do Sado e da saborosa caldeirada confeccionada pelo próprio Xico da Cana.
Figura incontornável da cidade sadina, uma das primeiras apresentações em televisão terá ocorrido em finais da década de setenta no programa "Prata da Casa" (RTP), apresentado por Júlio Isidro. Nos últimos anos tornou-se uma presença regular em programas televisivos também na Sic, designadamente "Sic 10 Horas", "Às 2 por 3", "Fátima" e "Contacto".
Em 1992, a câmara de Setúbal atribuiu-lhe a Medalha de Mérito da Cidade.
Porque os afectos são eternos, Xico da Cana fica para sempre colado à memória e ao coração.
Até sempre Xico da Cana...


Ó rio Sado de águas mansas
que pró mar vais a correr,
não leves minhas esperanças
sem esperanças não sei viver.
Onde é que existe um rio azul igual ao meu...


In "Rio Azul" (Mário Regalado)