sábado, 15 de setembro de 2007

Elmano Sadino



Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765, numa casa existente na Rua Edmond Bartissol (número 12), conhecida por Casa de Bocage/Galeria Municipal de Artes Visuais.
Apesar das imensas biografias publicadas após a morte do vate sadino, boa parte da vida do poeta permanece um mistério. Não se sabe que estudos fez, embora se deduza pela obra deixada que estudou os clássicos e as mitologias grega e latina, francês e também latim.
A infância terá sido infeliz. O pai foi preso por dívidas ao Estado quando ele tinha seis anos e permaneceu na cadeia seis anos. A mãe faleceu quando tinha dez anos. Possivelmente ferido por um amor não correspondido, assentou praça como voluntário a 22 de Setembro de 1781 e permaneceu no Exército até 1783, altura em que foi admitido na Escola da Marinha Real, onde fez estudos regulares para guarda-marinha. No final do curso desertou, mas, ainda assim, aparece nomeado guarda-marinha por D. Maria I.
Em 1786 embarcou como oficial de marinha para a India, na nau “Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena”, passando algum tempo no Rio de Janeiro. De acordo com o "Dicionário de Curiosidades do Rio de Janeiro" de A. Campos - Da Costa e Silva, "gostou tanto da cidade que, pretendendo permanecer definitivamente, dedicou ao vice-rei uma poesia-canção cheia de bajulações, visando atingir seus objetivos. Sendo porém o vice-rei avesso a elogios, fê-lo prosseguir viagem para as Índias".
Já na India, Pangim, frequentou de novo estudos regulares de oficial de marinha. Foi depois colocado em Damão, mas desertou, embarcando Macau. Não há registo de que tenha sido punido e ao que parece regressou a Lisboa em 1790. Se antes de antes, a fama de poeta versejador já corria pelas ruas da cidade, após o regresso, a década seguinte regista a maior produção literária de sempre e também o período de maior boémia e vida de aventuras.
No regresso, em 1790, aderiu - por convite - à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia, onde adoptou o pseudónimo Elmano Sadino. Pouco tempo escrevia já ferozes sátiras contra os confrades. Um ano depois, foi publicada a primeira edição de “Rimas”.
Pina Manique, o Intendente da Policia que dominava Lisboa decide pôr ordem na cidade, e 1797 Bocage é preso por ser “desordenado nos costumes”. Cumpre pena primeiro no Limoeiro, Limoeiro, depois no calabouço da Inquisição no Rossio, e no Real Hospício das Necessidades. Durante a detenção, Bocage mudou o comportamento e começou a trabalhar seriamente como redactor e tradutor, saindo em liberdade no último dia de 1798.
Nos anos que se seguiram continuou a trabalhar como tradutor, com uma frade que gozava das boas graças de Pina Manique. Vive definitivamente em Lisboa, numa casa alugada no Bairro Alto, o nº 25 da Travessa André Valente, na companhia de uma irmã que tinha que sustentar. Vive do trabalho e de pequenas ajudas dos amigos que lhe vendem os livros e lhe arranjam serões e saraus e outras festas para declamar os poemas que tão escreveu.
Bocage faleceu a 21 de Setembro de 1805, devido a um aneurisma. Depois de Camões, é o mais celebrado poeta português. Deixou uma vasta obra, multifacetada, do erotismo ao brejeirismo, da crítica construtiva ao escárnio, o que lhe valeu a atenção especial da censura, tendo visto muitos versos cortados, que lhe cortou muitos versos, outros alterou e muitos simplesmente omitiu tendo sido publicados apenas a título póstumo.
No ano em que se assinalava o primeiro centenário do nascimento do vate, surge no Brasil uma proposta para angariação de fundos para a construção de um monumento alusivo a Bocage. Uma crise financeira no Rio de Janeiro quase impossibilita a acção. Mesmo assim, o principal impulsionador da iniciativa no Clube Fluminense, José Feliciano de Castilho, consegue reunir alguma verba que é canalizada para Portugal. A 22 de Novembro de 1871 a câmara municipal de Setúbal colocou a primeira pedra no monumento, inaugurado a 21 de Dezembro seguinte. O monumento, de mármore branco, mede 12 metros de altura e é formado por uma coluna coríntia em cima de quatro degraus oitavados, tendo sobre o capitel a estátua do poeta, com dois metros, está situado num dos espaços mais nobres da cidade de Setúbal, que também tem o nome do poeta (Praça do Bocage) onde também se situam os Paços do Concelho, para onde curiosamente, o vate está virado de costas.
Em 1868, a câmara sadina tinha já mandado colocar uma lápide comemorativa na casa onde nascera o grande poeta. Mais de um século depois, a autarquia sadina recuperou a casa e transformou-a em espaço de artes/galeria de exposições temporárias.
No entanto, a autenticidade da casa de Bocage, doada ao município, em 1888, pelo industrial francês Edmond Bartissol, foi posta em causa por Adelto Gonçalves, autor de "Bocage, o perfil perdido". No livro, Adelto Gonçalves advoga que o poeta nasceu não ali, mas junto ao Largo de Santa Maria. Segundo o investigador brasileiro, que consultou escritos no mesmo sentido deixados pelo historiador Almeida Carvalho, a consagração da casa em causa terá sido fruto de "uma farsa" arquitectada em oitocentos.
15 de Setembro, data de nascimento do poeta, é feriado municipal em Setúbal.

1 comentário:

Natália disse...

E no feriado da cidade, em que se evoca Bocage, para além de momentos culturais e das entregas de medalhas e afins, este ano a Câmara Municipal decidiu inaugurar... um parque de estacionamento!
E colocou isso no programa das festas! Não vem mal ao mundo, mas imagina o que é explicar a iniciativa a um turista estrangeiro que está cá de visita! A parte cultural eles entenderam no meu inglês desenrascado, mas não conseguiram compreender porque é que aquela inauguração constava no programa de homenagem a, disse-lhes eu e não menti, um dos maiores vultos da escrita nacional de todos os tempos.